Há 30 anos, comício das Diretas Já!

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Após aquele 25 de janeiro de 1984, o Brasil e a ditadura militar nunca mais foram os mesmos. A praça estava lotada e o palanque também, em contraste com a ditadura que se esvaziava. A campanha Diretas Já! tinha ali não o seu primeiro evento, mas certamente o mais emblemático.

Poucos dias antes, milhares de pessoas haviam lotado a Boca Maldita, em Curitiba. Em novembro, também em São Paulo, cerca de 15 mil pessoas haviam gritado por Diretas Já! na praça Charles Muller. Em Goiânia já havia acontecido o mesmo. Mas o comício da velha Praça da Sé, no marco zero, foi mesmo um referencial como ponto de partida de um movimento que então se tornava nacional.

Osmar Santos, meu grande ídolo na história do rádio, era o mestre de cerimônias que incendiava a multidão e domava as feras políticas – Lula, FHC, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães e o grande governador Franco Montoro. Foi deste último o momento mais inspirado entre todos os oradores. “Perguntam se há aqui 300 ou 400 mil pessoas. Mas a resposta é outra. Aqui na praça estão presentes as esperanças de 130 milhões de brasileiros”. Foi de arrepiar!!!

O porta-voz do presidente João Batista de Figueiredo, Carlos Átila, tratou a reunião cívica com desdém. Disse que eram apenas “100 mil presentes”, contra os milhões de votos que o PDS  (o partido de sustentação do governo militar) havia recebido na eleição anterior, que escolhera os parlamentares que votariam no Colégio Eleitoral de onde sairia o próximo presidente.

Naquele dia, além de Montoro e Brizola (Rio de Janeiro), apenas outros dois governadores estavam presentes – José Richa (Paraná) e Iris Resende (Goiás). Tancredo Neves, um ano depois eleito presidente via Colégio Eleitoral, estava em Minas Gerais recepcionando o general Figueiredo. José Sarney….bem esse tinha sido reeleito na presidência do PDS no anterior 15 de julho.

Exatos 3 meses depois do comício da Sé, a emenda Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições diretas para presidente, foi derrotada na Câmara dos Deputados. Faltaram 22 votos. Paulo Maluf, que sonhava com a presidência, votou contra, assim como Edson Lobão, Angelo Magalhães, que representava o clã liderado por ACM na Câmara, Mendonça Falcão, um ex-presidente da Federação Paulista de Futebol, e o paranaense Reinold Stephanes, mais tarde ministro de FHC e de Lula. Afinal, nos ensinavam, nossa democracia não era revanchista!

No dia 16 de abril, um pouco antes da votação da emenda Dante de Oliveira, o presidente Figueiredo tentou um último recurso a fim de adiar o fim iminente do regime que apodrecia. Ele enviou para apreciação do Congresso a Emenda Leitão, assim batizada por ter sido redigida pelo ministro da Casa Civil Leitão de Abreu. O texto previa Diretas em 1988 e com reeleição. A proposta foi rechaçada pela oposição. Nem podíamos imaginar que, se fosse aceita, nos evitaria um ano a mais de governo Sarney e de compra de votos de parlamentares para aprovação da reeleição em 1997.

Derrotada a emenda Dante de Oliveira, o jeito era mesmo enfrentar Paulo Maluf na eleição indireta. E como nos faziam acreditar que a moderação era o melhor e mais seguro caminho para apreciarmos a democracia sem ferir os brios dos militares que teimavam em resistir, aceitamos uma transição de viés conservador.

Tancredo Neves e o vice José Sarney, então convertido em democrata, formaram a chapa para a batalha final. A oposição, já sem a liderança dos protagonistas das Diretas Já!, enfrentaria um candidato civil como representante do regime dos militares. E foi assim, que ironicamente, mandamos os militares para casa e um oligarca para o Planalto.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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