Masmorras

masmorra

(@opinioso)

Tom Wolfe diz que o conservador é um liberal assaltado. Não está exatamente errado: é muito comum encontrar quem seja progressista na teoria e retrógrado na prática, principalmente quando o sapato aperta. A proximidade muda as pessoas.

Por isso que, se o conservador é o liberal assaltado, o liberal é o conservador com filho pego com cocaína. Se for um pobre órfão, é traficante, bandido safado que tenta destruir a sociedade. Mas se for o jovem branco que compra para consumir nas festas com amigos, coitado, é só mais um menino bom que foi vítima de más influências. O lugar dele não é a cadeia, mas uma clínica de reabilitação, com toda a privacidade, e se você publicar que meu garoto é um drogado te processo, valeu?

Por que falo isso? Por duas coisas que me chamaram atenção recentemente. A primeira foi a redescoberta da situação carcerária no país. A cada três meses surge algo que chama atenção para os depósitos de restos humanos que se tornaram nossos presídios, mas nada muda. Há algum tempo, o ministro da Justiça (do qual faz parte o Depen, responsável pelo setor na área federal), disse que nossas carceragens são medievais, e que preferiria morrer a passar anos preso. Deu barulho, rebuliço, e nada. Depois, quando os mensaleiros foram presos, alguém se preocupou em saber se eles teriam condições dignas de estadia (como se o resto não merecesse). Garantido que sim, dane-se o resto. Agora, foi preciso morrer dezenas no Maranhão para que percebessem o absurdo ali.

Existe um clichê de que um dos problemas no Brasil é a impunidade. Não é – o problema é a falta de propaganda. Entre 1990 e 2012, a população brasileira aumentou 30%, segundo o IBGE. No mesmo período, a população carcerária aumentou 511% – segundo dados do Ministério da Justiça levantados pelo Congresso em Foco. Não prendemos pouco – prendemos muito, aos montes, mais do que conseguiríamos. Toda vez que um crime choca o país, defendem o endurecimento da lei – como se reprimir fosse sempre o único caminho. Então colocamos mais gente por ainda mais tempo em lugares inóspitos e insalubres. E reclamamos quando reincidem.

O outro motivo foi a morte de um rapaz de 20 anos em Brasília. Sem saber nadar, ele ficou preso dentro de um carro arrastado pela correnteza para debaixo de um viaduto que a chuva alagou. Mais de 2 metros de água numa obra que se pretendia planejada. Coisa escandinava sabe? Até aí, só mais um dos típicos absurdos diários nossos. O problema foi depois, quando descobriram que o rapaz tinha passagens pela polícia. Degringolou. Muita gente passou a achar até positivo que ele tenha morrido. “Ainda bem que ele morreu”, “obrigado, chuva!”, diziam entre brincadeiras, como se viaduto mal construído tivesse se tornado o instrumento legal para a pena de morte.

Todo mundo tem mãe, muita gente tem irmão e tio. Todos nós estamos sujeitos a lidar com um parente ou amigo seguindo um caminho errado, e só sociopatas não se desesperariam ao ver alguém com que nos importamos sendo arrastado, culpado ou não, para uma prisão ou morrendo afogado no meio da rua. Desumanizar alguém porque a pessoa cometeu um erro, por pior que este seja, parece ser o caminho mais simples para conseguir aguentar este mundo bizarro e sombrio – quase uma masmorra – que vivemos, mas não é de nenhuma ajuda para melhorar esta situação.

Anúncios