PSDB: entre o Bolsa Família e a bolsa Louis Vuitton

O PSDB é um dos partidos fundamentais na modernização do Brasil pós-redemocratização. E mantém-se como a única força política capaz de rivalizar nacionalmente com o PT como alternativa de poder. Em nível regional, conserva há mais de uma década os governos dos dois maiores colégios eleitorais do país, o que não é pouco. Só que agora, mais do que em qualquer outro momento desde 1994, o partido corre sério risco de ser reduzido à condição de agremiação de segundo escalão, distante da perspectiva de poder, se não der uma guinada para se reposicionar.

Principal referência da história de 26 anos dos Tucanos, Fernando Henrique Cardoso deixou um legado de transformações. Goste-se ou não do ex-presidente, a verdade é que em seus dois mandatos o país conheceu mudanças importantes. A gestão pública registrou avanços a partir da aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, o governo incentivou a abertura em setores vitais e a inflação foi domada. No campo social, a sensibilidade da primeira-dama Ruth Cardoso levou o governo a lançar iniciativas como o Comunidade Solidária, que unificou sob um único guarda-chuva os programas de transferência de renda para a população mais pobre.

Ocorreram, é verdade, sobressaltos na economia, que foram agravados por severas crises globais, tratadas com excessiva dose de ortodoxia na avaliação dos críticos. A conjuntura de instabilidade internacional provocou a elevação das taxas de juros e fez do fantasma do desemprego uma ameaça onipresente. Mas, após oito anos de hegemonia Tucana, o país avançou e FHC deixou um importante legado. Menos para o PSDB!

Logo na primeira eleição para presidente sem o nome de FHC na urna eletrônica, o PSDB foi tímido na defesa do governo. Os indicadores pouco favoráveis que a economia apresentava no momento da campanha eleitoral distanciaram Tucanos de alto plumagem da herança daqueles dois quadriênios. Impiedosos, os rivais chegavam até mesmo a insinuar que os candidatos da situação tinham receio de dizer que eram governistas. Mas ao que parece, o PSDB versão 2014 descobriu que o passado não o condena a se arrepender do que fez quando era governo. E que defender o legado de FHC pode ser um capital eleitoral nada desprezível nos dias de hoje. O problema que resta é qual a parte da herança que o PSDB prefere apresentar para o eleitor.

A estabilização da economia é, há 20 anos, um inegável ativo Tucano. Por conta dela, o partido se relaciona com facilidade com o mercado, que certamente ficaria feliz em vê-lo de volta no Planalto. Só que é necessário bem mais que a aliança com o andar de cima para o projeto de reconquista do poder. E, ademais, o discurso afinado com as expectativas do mercado, com a parcela que tem acesso à bolsa Louis Vuitton, é visto com justa desconfiança pela base da pirâmide, aquele público que tem as contas apertadas no final do mês e que, não raras vezes, é cliente do Bolsa Família.

Se não ampliar o alcance do discurso, o PSDB arrisca-se a ficar condenado ao apoio cativo da elite e a dividir com o consórcio PSB-Rede o eleitorado mais ao centro, onde não cabem dois candidatos competitivos. E para eleger um presidente é necessário ir muito além. O partido sabe que é preciso sair do ninho e reforçar o apelo social em busca de uma fatia do eleitorado que atualmente parece confinada ao imenso latifúndio de votos que abastece o PT. No entanto, não é com conversa para economista ver que um partido consegue penetrar nessa seara e usufruir desse maná.

Sendo assim, não surpreende que o candidato Aécio Neves tenha recentemente classificado o programa Mais Médicos, uma das vitrines da gestão Dilma, de boa iniciativa. Ele sabe que o partido precisa de uma inflexão social para avançar sobre a clientela eleitoral do PT. Isso significa não ter vergonha de ser um pouco do que o PSDB foi em meados da década de 90. Caberá ao candidato calibrar discurso e prioridades. Eis o maior desafio. Se é certo que o capital estará com ele, resta saber como irá conseguir cooptar os descapitalizados. Ele já tem a turma da bolsa Louis Vuitton. Mas para ter chance de vencer, precisará atrair os incluídos do Bolsa Família.

Saber com que bolsa desfilará na campanha poderá ser a diferença entre o sucesso e o fracasso. Ter a sensibilidade para acertar nesse tipo de escolha era um dom de Tancredo Neves. Agora, chegou a vez de Aécio se mostrar um legítimo herdeiro não apenas do sangue do avô, mas do DNA político do maior dos Tucanos – Fernando Henrique Cardoso.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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