O funk da discórdia

Baile-funkVamos aos fatos: a Câmara de São Paulo aprovou um projeto de lei que proibia bailes funk em vias públicas (onde, até onde eu sei, são realizados 99% desses bailes). O Prefeito Fernando Haddad (PT) vetou o projeto alegando que “O funk é uma expressão legítima da cultura urbana jovem, não se conformando com o interesse público sua proibição de maneira indiscriminada nos logradouros públicos e espaços abertos”.

Parte da opinião pública criticou duramente o Prefeito usando “argumentos” como o de que isso é “populismo” e forma de “comprar voto dos funkeiros”.

Agora vamos analisar a situação passo a passo. O projeto é absurdo. Não sei se é ilegal, creio que não, já que se trata de vias públicas, mas é, ainda que extra-oficialmente, censura. Tentar impedir qualquer manifestação cultural tem esse nome. O funk, como disse o Prefeito Haddad, é uma manifestação cultural. Se é boa ou é ruim, não sou eu, nem você, nem os vereadores, nem o Haddad quem tem que dizer. O que eu, você, os vereadores ou Haddad gostamos em termos de música não importa.

Se existem uma, duas, dez ou cinco mil pessoas que gostam de funk e querem ir ao baile, que se permita o baile, ué. “Ah, mas faz barulho”. Admita: seu problema não é com o barulho, mas com o que ele diz. Isso não é exatamente ruim, já que o direito que o cara tem de ouvir funk é o mesmo que você tem de não gostar. Mas daí a querer que ele ouça em casa, vai uma grande diferença.

Vamos a um exemplo prático: eu não gosto de funk. Não por causa das letras, nem do estilo de seus cantores, nem pela melodia, nem nada disso que a gente não precisa explicar quando diz não gostar de qualquer outro gênero. Só não gosto. Se eu estiver em um local e do lado houver um baile funk, eu possivelmente ficarei irritado. Só que isso não me dá o direito de proibir que o baile aconteça. Mesmo porque seria uma hipocrisia imensa da minha parte.

Eu gosto de samba, de Carnaval. Aqui em São Paulo, uma das maiores tradições em matéria de samba-enredo (e isso se estende por outros lugares daqui e do Rio) são os ensaios da Vai-Vai pelas ruas do Bixiga. Ora, como eu posso querer proibir o funk se o gênero que eu gosto faz o mesmo barulho? E admita, você também não ligaria se houvesse um show do seu artista preferido na porta da sua casa. Aliás, duvido que, fosse outro gênero, alguém sequer levasse uma Lei dessas para a câmara.

O funk vive, hoje, um preconceito que o próprio samba viveu no Século XX. É um assunto a ser explorado em outro texto, mas creio que a vontade de gritar que fulano tem moto x, carro y e “n” mulheres irrite um pouco quem não tem nem a moto, nem o carro e muito menos a mulher. É um preconceito diferente do que o samba viveu (ali havia uma ligação forte com o racismo, já que a escravidão ainda era coisa recente), mas preconceito.

Quando Fernando Haddad vetou o projeto de lei que proibia os bailes, ele não fez nada que mereça uma salva de palmas. Fez o que qualquer político, em 2014, deve fazer. Isso não é populismo: é liberdade de expressão.

Agora vamos à parte final. O barulho feito por essa tal “opinião pública” me deixa um pouco assustado. Não deveria, já que temos demonstrações dessas dia sim, dia também, mas ainda me deixa. É complicado pensar que estamos em 2014 e algumas pessoas ainda relacionam o gosto musical ao caráter de alguém.

Sim, o funk é patrocinado por muitos bandidos, traficantes e etc. Acredito que até alguns cantores tenham caráter duvidoso. Mas isso não significa que o cara que ouve funk vá roubar sua carteira. Novamente recorro ao samba: o Carnaval foi e ainda é patrocinado por bicheiros, traficantes, mas tem, por trás de cada um deles, milhares de pessoas que suam sangue por sua comunidade. Pessoas honestas, trabalhadoras, de bem.

É completamente absurdo ligar uma coisa com outra. O fã de Justin Bieber é acusado de pichar muros, arrebentar hotéis e transgredir regras? O fã de João Gilberto é tido como alguém que não cumpre horários? O torcedor do Botafogo é acusado de bolar golpes do tipo pirâmide de Ponzi? E os jovens ricos que financiam o tráfico de drogas de maneira muito mais séria que através de um baile funk? Sim, subir o morro pra comprar maconha ainda é mais grave do que ouvir funk.

Que fique claro que nesse jogo de opressor e oprimido, o segundo só não toma a mesma postura preconceituosa por falta de oportunidade. Experimenta trocar o baile funk por uma ópera em um sábado qualquer pra você ver. A filosofia do “minha vontade é o que vale” impera por aqui em todas as classes. Aliás, é a coisa mais democrática e que une ricos e pobres que temos no Brasil desde que o ingresso no Maracanã ficou mais caro.

O Brasil sempre se orgulhou de ser terra de todos, um mosaico de diferentes culturas, etnias e gostos. Mas, a cada dia que passa, fica mais evidente que todos são iguais, mas, em geral, todos nós queremos ser mais iguais que os outros.

Leonardo Dahi

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4 comentários sobre “O funk da discórdia

  1. Vou deixar aqui o meu ponto de vista. Eu odeio ter que ouvir os seguintes sons vindos da rua enquanto estou em casa: axé, pagode, samba, rock ,musica eletronica, reggae, rap, bossa nova, mpb, musica popular tailandesa, new wave, musica classica, trilha sonora de novela, musica ambiente, afrobeat, blues, polka, ska, soca, swing, tropicalia, glitch, pop, house, busina, musica de memes, carro alegorico, carro do churros, avião, musica sertaneja, especial de ano novo do roberto carlos, rojão, gente que fala gritando, motoqueiro que tira a flauta do escape pra fazer barulho, carro velho, ambulância, bombeiro, treta, cachorro sendo atropelado, trovão, avião sobrevoando em baixa altitude, e provavelmente só esses.
    A única diferença desses sons listados para o Funk, é que o Funk é o único que não é um som passageiro, os que tocam funk não vão embora com seu som desagradável que atrapalha meu trabalho, ele não passa pela rua como apenas uma pessoa em curso para fazer outra coisa de maior importância, ele vem pra ficar por alguns minutos ou horas, ele é estacionário, ele escolhe um local propício para gerar discórdia, e o faz, (há uma escola pública na frente da minha casa, todos os dias letivos tem pelo menos 1 carro de funk pra anunciar a saída/entrada de alunos. Desnecessário dizer que o barulho gerado pelos carros é mais alto que o som de crianças saindo/entrando na aula).
    A diferença está na finalidade do som, enquanto alguns gostam de ouvir som alto no carro enquanto dirigem, outros gostam de ouvir som alto no carro pra todo mundo ouvir. Eu desgostaria se acontecesse isso com outros gêneros musicais, o que não acontece. Na minha opinião, seu gosto fica pra você e não pros outros

    • Em primeiro lugar, sua vida deve ser meio chata. Dizem que a música é uma das melhores coisas da vida e, se você não gosta de nenhuma, há um pequeno problema. Enfim… Depois, se você quer um lugar onde o gosto fica só pra você, sugiro que more na Groelândia.

      Leonardo Dahi

      • música é legal e pa… eu escuto música quase todo tempo, mas é meio desagradável quando eu to tentando ouvir minha música de boa e passa um carro (provavelmente seu) tocando música alta, que eu não gostaria de ouvir no momento, e é pior ainda quando passa um carro e para na frente da minha casa tocando música extremamente alta, não citando funk, mas 97% dos casos é funk

      • Opa opa opa! Pera lá! Baile funk é uma coisa, falta de respeito (som alto ligado no carro), é outra.

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