Ele sempre voa

Leonardo Dahi

Foto: EBC

Os quatro ex-Presidentes vivos – José Sarney, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva – mais a atual Presidente Dilma Rousseff, embarcam para Joanesburgo, África do Sul, para prestar as últimas homenagens ao grande líder local, Nelson Mandela, morto na última quinta-feira. Eles entram no avião da FAB, que não parecia em boas condições, aliás, e se preparam para a decolagem.

Estranham a demora e, quando vão até a porta da aeronave, se deparam com um bate-boca do copiloto pelo telefone. Dilma pergunta qual o problema, ele tenta desconversar, mas acaba dizendo a verdade: o piloto escalado para o voo perdeu totalmente sua força e desmaiou quando vinha para Brasília, não podendo pilotar. O copiloto tenta convencer a torre de que pode guiar o avião, mas recebe como resposta, o argumento de que, neste caso, não haveria copiloto. Sabe-se Deus como isso foi possível, mas não havia ninguém para substituí-lo em pelo menos cinco horas. A esta altura o telefone estava no viva-voz.

Sarney então se adianta, toma o telefone e diz:

– Eu posso ser o copiloto.

Quando perguntado se já havia exercido a função, ele responde:

– Não, mas acho que sei como fazer. Esse avião se mantém sozinho no ar, apesar de qualquer coisa. Chegaremos em Joanesburgo.

A torre estava irredutível, mas Dilma, com calor, tomou o aparelho e autorizou Sarney a auxiliar o agora piloto. Misteriosamente, neste momento, o piloto leva um tiro – o avião leva alguns, mas não há mais nenhum ferido. A equipe média chega, mas não evita sua morte. O avião, então, sobra para Sarney que, aos trancos e barrancos, decola o avião sem copiloto mesmo.

A viagem foi bastante tensa. As turbulências não eram esporádicas e sim permanentes. As turbinas estão com defeito, as asas não parecem tão firmes. A impressão é de que o avião cairia a qualquer momento. Para piorar, nenhuma aeromoça conseguia encontrar as comidas e bebidas no avião, devido aos movimentos bruscos que o avião fazia. Pouco menos de uma hora depois, Sarney reconhecia que não tinha condições de prosseguir como piloto. Ao mesmo tempo, Collor e Lula se candidataram para assumir. Após uma pequena discussão,  Collor acabou vencendo e sentou na cadeira da piloto.

Aos poucos, a comida começou a aparecer e a viagem passou a ser um pouco mais tranquila, embora alguns passageiros achassem estranho o fato de suas carteiras aparecerem na cabine do piloto. Eis que o avião começa a desacelerar. Desesperados, os passageiros perguntam o que houve e Collor responde:

– Calma, eu vou segurar um pouco a gasolina do avião porque não sei se ela aguentará até a África. Daqui a uma meia hora eu volto a acelerar aos poucos.

Com o avião cada vez mais próximo do chão, arrancam Collor de lá. O avião fica parado por um tempo até que Lula perde de novo e há uma troca de Fernandos: entra o Henrique. O avião se choca contra algumas árvores (sim, tudo isso aconteceu antes que ele saísse do território nacional) e, com alguns ferimentos, acaba milagrosamente voltando a voar. Aos poucos, a turbulência acaba, a viagem vai ficando mais confortável. Após algum tempo, Lula bate na porta da cabine, entra e encontra um compenetrado Fernando Henrique lendo guias turísticos de Paris, Milão, Londres e Barcelona. Pergunta a FHC porque aquilo e ouve:

– Resolvi não ir mais para a África. Faz tempo que não tiro umas férias na Europa, acho que mereço viajar um pouquinho. Agora decolaremos em Paris e lá me encontrarei com o cara que, espero, vá assumir este avião e nos levar para o resto da Europa.

Hora de seguir viagem. (Foto: UOL)

Lula tenta convencer FHC a rumar para a África, até que sente um tranco. O avião, de maneira bem atrapalhada, pousa no aeroporto da capital francesa e acaba ainda mais danificado. Enquanto FHC desce e explica a situação para o suposto novo comandante – um tal de José Serra -, Lula fecha a porta da aeronave e decola, danificando ainda mais a mesma.

Enfim, o avião fica mais estável. Ele está bem danificado e isso mais cedo ou mais tarde trará problemas, mas Lula, milagrosamente, faz com que o mesmo voe bem. A comida melhora e agora tem até filme para os passageiros. “Lula, o filho do Brasil” é a película. O que ninguém sabia é de onde apareceram tantos novos passageiros e porque todos eles usavam cuecas que tinham dólares como estampa. Com o alto número de passageiros, começou um campeonato de pôquer com dinheiro envolvido – não só durante as partidas, diga-se. Quando está quase chegando em terras africanas, ele passa o controle para a Dilma. Pela primeira vez, a troca de comandante foi tranquila.

Quando Dilma assume, os danos no avião começam a trazer problemas. Por sorte, quando começavam a cair, o aeroporto de Joanesburgo já era visível. Dilma bate, arrebenta todo o avião, o raspa no chão, quase atropela quem está na pista, mas pousa.

Eles descem e já começa a discussão para ver quem assume na volta. Dilma diz que consegue o levar para o Brasil. Lula diz que, em último caso, está ali. Também aparece o neto do copiloto morto. Ninguém sabe como, mas aquele cara que assumiria o voo em Paris já estava em Joanesburgo e também quer o comando da aeronove. O neto do copiloto morto está no chão, após levar uma rasteira. Também estão lá um piloto com bons voos domésticos e que traz como copilota uma ativista indignada com as árvores derrubadas no caminho. De repente, surge um policial prendendo alguns passageiros do avião e alguns populares sem-noção pedem para que ele leve todo mundo de volta pra casa.

Que o avião voe – e, de preferência, sem muitos danos ou turbulências.

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* Esta é, obviamente, uma obra de ficção. Talvez haja algumas semelhanças com a realidade. Talvez.

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