Consequências

Ativistas_Instituto_Royal

(@opinioso)

A primeira geração que cresceu 100% com acesso à Internet está hoje na casa dos 18 a 20 anos. Uma molecada que, na adolescência, conversava livremente com os amigos pelo MSN, comentava no Youtube, postava depoimentos no Orkut. Garotos e garotas que cresceram dando sua opinião em tudo, pedida ou não, ligando ou não para quem as ouviria. Parece bom, né? Não é.

O problema da opinião – muitas vezes anônima – na Internet é que ela impede a aprendizagem sobre consequências. É lógica elementar: se ninguém sabe quem sou eu, todos os meus preconceitos, incoerências e absurdos podem ser expressos na rede, sem medo de que isso me cause algum problema. Quem ainda passou pelo mundo real sabe que não é bem assim: eu vou apanhar se disser pessoalmente ao grandão da academia que ele está querendo compensar no tamanho do bíceps o que lhe falta na área sexual. Se eu faço isso no Instagram dele, usando um perfil falso, nada acontece. Aí fica fácil. É claro que existem pontos benéficos nisso. É o garoto da vila que grita que o rei está nu, aproveitando de sua inimputabilidade por ser menor de idade.

A inconsequência tem uma função importante ao permitir que coisas que precisam ser ditas sejam ditas, já que o resto teme o resultado de falar. Nas empresas, não é raro que o estagiário “abusado” ou o trainee “carreirista” colaborem ao dar opiniões que outros preferem não dar para não desagradar o chefe. Mas isso tem que ser dosado. Se não, a coisa degringola em outras áreas. Dou dois exemplos. O primeiro envolve as manifestações que acontecem em todo o país desde junho. É fácil ver que a maioria dos participantes é composta de jovens na faixa etária que citei. É fácil ver a influência da Internet na organização dos eventos. E é fácil ver que a maioria age de forma descompromissada por absoluta falta de preocupação com as consequências do que faz.

Não estou falando de vandalismo – inclusive, aceito um certo grau de quebradeira contra patrimônio público, porque é catártico e a sociedade tem sua parcela de culpa nesta raiva toda – mas do resto. Muitos não sabem o que querem, muitos agridem por agredir. O que a pedrada no jornalista que está trabalhando vai mudar no sistema? O que se ganha agredindo a imprensa? O que seu ato “de opinião”, sua liberdade de expressão em arremessar uma pedra em um trabalhador vai mudar?

O segundo exemplo envolve a libertação de algumas dezenas de cachorros de um laboratório em São Roque, interior de São Paulo. Um bando de jovens que acreditava haver ali maus tratos ignorou todas as instâncias legais e institucionais e resolveu invadir o prédio e libertar os animais que estavam ali. Todos não, é claro – só os beagles bonitinhos. Os ratos que também eram utilizados nas pesquisas foram deixados para a suposta morte. O argumento? Do lado de fora, enquanto protestavam, os manifestantes ouviam ganidos que pareciam indicar o sofrimento dos animais. Décadas de importantes pesquisas médicas foram perdidas pela ação.

É este o ponto: entramos na seara perigosa da passagem da opinião à ação. Se ela é pensada, planejada e tem um objetivo, é lindo. Mas quando ela vem de gente que nunca aprendeu o conceito de consequências e sequelas, que não se preocupa com o resultado no curto, médio e longo prazo, cria-se um risco tremendo. Porque existe a destruição construtiva e existe a destruição. A primeira é uma necessidade. A segunda, tão útil quanto uma foto de bíceps no Instagram.

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