O sono dos que se arriscam

Por Marlos Ápyus

Todo mês, via débito automático, meu banco retira uma pequena fração da minha conta para meu plano de previdência privada. Mas não é o único caso. Ele também subtrai pequenas quantias para um seguro de vida e um segundo plano de previdência, este menor que o primeiro. Quando conversei com meu gerente, pedi: um serviço que me possibilitasse uma aposentadoria em no máximo duas décadas, um que me possibilitasse férias anuais e um que cobrisse meus custos caso viesse a ficar inválido ou faltar (o eufemismo que eles usam para “morrer”). Foi o que me dispuseram.

Porque em dado momento precisei me organizar. Eu até cheguei a trabalhar dentro de algumas empresas, sempre como estagiário, mas logo vi que meu rendimento por conta própria era muito maior. Já no segundo ano no mercado de trabalho passei a dividir turnos com meus “freelas”. No quarto ano, passei a definitivamente a trabalhar só e hoje, mesmo que ainda sem funcionários, tenho uma microempresa em meu nome.

É arriscado, mas tem seus benefícios. Se por um lado é comum iniciar o mês sem a certeza de que terei grana suficiente para o aluguel, por outro reservo-me o direto de só acordar a hora em que meu sono passa. Mas algo que não preciso reclamar é da falta de CLT na minha vida: para todos os benefícios que a Lei de Trabalho oferece ao trabalhador, eu consigo um serviço semelhante, mesmo que as vezes mais caro, mas tantas vezes melhor, me fornecendo garantias junto à iniciativa privada.

Mas o mais importante é: eu optei correr estes riscos em prol de uma vida que eu acreditava (e aos poucos confirmo) ser melhor.

No auge da gritaria do Occupy Wall Street, um gráfico, segundo vários amigos simpatizantes do movimento, resumiria bem a causa pela qual se lutava. Na época eu não quis comprar briga, até porque achava que logo aquilo tudo arrefeceria (como vem ocorrendo), mas já enxergava ali uma leitura torta das relações existentes no mercado.

Qualquer pessoa que estudou um mínimo de investimento sabe que, quanto maior o risco, maior o prêmio em caso de sucesso. A poupança apresenta o risco mais baixo do mercado e, consequentemente, os prêmios mais baixos. Já aplicações em bolsa podem tornar você bilionário em um ano e levá-lo a falência no ano seguinte. O ponto é que, por uma lógica que me parece bem justa, o mercado resolveu premiar melhor quem se arrisca mais.

No gráfico em questão, vemos os mal-quistos 1% passarem de uma renda familiar, que girava em torno de meio milhão de dólares nos anos 80, chegar ao segundo milhão de média à medida em que os anos 10 se aproximavam. Enquanto isso, os tais 99% mal passavam dos 100 mil dólares anuais durante todo o período.

O que a visão apaixonada dos ocupantes da Wall Street parece ignorar no gráfico em questão é a sinuosidade de cada curva. Os 80% mais pobres vivem uma linha reta que cresce muito lentamente. Os 20% mais ricos, provavelmente por conta do apoio do por cento odiado (que neste caso também foi considerado), já tem alguns altos e baixos, mas no geral há uma situação de ganho com pouca turbulência. Apenas o por cento do topo vive uma verdadeira montanha russa, com grandes variações em espaços curtíssimos, sempre respondendo direta e imediatamente a toda pequena e grande crise, levando tombos curtos e enormes, levantando, sacudindo a poeira, dando a volta por cima, buscando voos sempre mais altos. É este o percentual que mais assume riscos. É natural esperar que seja este o percentual que receba os maiores prêmios.

O brasileiro é exigente. Ele quer um emprego. Além disso, ele quer um limite máximo de 40 horas semanais de trabalho. Quer ganhos maiores por horas extras. Quer direito a um décimo terceiro salário, a tirar férias remuneradas de 30 dias uma vez por ano. Não aceita receber menos que um salário mínimo por isso. Quer que o empregador pague por seu transporte e por sua refeição. Quer que o empregador separe 8% de tudo o que ganha para caso um dia seja demitido. Quer um plano de saúde dos melhores. Em caso de gravidez, quer seis meses de licença. No primeiro ano dos filhos, mais 30 faltas para idas ao médico. Quer aviso prévio de 30 dias. E ainda quer se aposentar recebendo salário vitalício após 35 anos de serviços prestados.

Tudo bem. Se é isso que o brasileiro quer, eu não sou contra, acho até digno de aplauso o quão exigente é. Mas é preciso entender que há um custo para essa vida quase sem riscos. Que, assim como almoço, não há CLT grátis. E quem paga a conta é o próprio trabalhador, que poderia estar recebendo o dobro, mas tantas vezes vê seu patrão arcar em mais de 100% os custos das leis trabalhistas.

O que sou contra é que se demonize quem preferiu correr tais riscos. Quem preferiu iniciar o mês sem saber se terá o suficiente para pagar o aluguel. Quem decidiu acumular ganhos para adiantar uma aposentadoria, ou apenas para garantir uma vida de alta qualidade para todos os seus descendentes. Que se menospreze quem responde direta e imediatamente por qualquer crise que o país enfrente.

Porque pessoas como eu, mesmo que apenas sócios de uma microempresa ainda sem funcionários, também querem dormir o sono dos justos. E, no meu caso, a maior exigência é: até que o sono passe.

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