Black Bloc apenas mascara o autoritarismo

O governador Geraldo Alckmin tem sido alvo de vaias e protestos nas manifestações de São Paulo. No Rio de Janeiro, só Sérgio Cabral sabe o que ele tem passado. Dilma foi vaiada em manifestação de rua, em estádio de futebol e até em reunião de prefeitos. Antes deles, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também não era poupado nem em desfile de 7 de setembro.

Vaiar governante é um direito inalienável em qualquer democracia que se preze. E felizmente no Brasil é assim. Só que todos nós sabemos que nem sempre foi desse jeito. Por muito menos, mas muito mesmo, que qualquer uma das recentes ações do Black Bloc, a truculência da polícia da ditadura teria entrado em ação sem dó nem piedade.

Governante não tem medo de Black Bloc. Contra esses, é só mandar a polícia agir. Dá trabalho, corre um pouco de sangue, mas custa pouco resolver.

O que pressiona mesmo qualquer governante é a população civilizada na rua. Foi assim em grande parte dos protestos de junho, a ponto de a presidente Dilma ter chamado para conversar os garotos do Movimento Passe Livre e os líderes de outros movimentos sociais. E foi assim que começou a sair do imobilismo.

Com a popularidade despencando por conta das manifestações e com a voz das ruas ecoando pelos centros do poder e reuniões partidárias, os governos entenderam que algumas respostas eram urgentes.

Governadores e prefeitos correram para cancelar reajustes de tarifas de transportes públicos e de pedágios. Atordoada, a presidente anunciou um bilionário pacote de mobilidade urbana, lançou o Mais Médicos e, ainda que de forma confusa, apresentou um pacote de reforma política, discretamente abandonado pelo Congresso, diga-se.

Não é necessário ser muito atento para perceber que as respostas formatadas para atender ao clamor por melhores serviços só saíram das gavetas palacianas em razão da pressão das ruas. Afinal, como é que o governo poderia enfrentar de mãos abanando milhares de pessoas que pacificamente tomavam ruas e avenidas apenas para pedir mais qualidade nos transportes, educação, saúde e menos roubalheira?

Contra esse tipo de reivindicação, não existe polícia capaz de restabelecer a ordem. E o governo sabe muito bem que o público ficou mais exigente, eleitoralmente mais ameaçador e que pode ocorrer uma reação de causa e efeito entre o bom atendimento e a quantidade de votos em 2014.

Pode soar incoerente, mas o Brasil que foi às ruas em junho é um país que nunca esteve tão bem. Mente quem disser que o país não está mais rico, com menos desempregados e miseráveis do que em qualquer época da história. Mas também mente quem tentar nos convencer de que este público está satisfeito e bem atendido.

Público com mais dinheiro é mais exigente e quer serviços melhores. E por aqui, com tantos impostos, a população paga adiantado serviços que ela nem sempre recebe. Nesse sentido, os governos aqui instalados praticam 171 conosco desde 1500.

Melhoramos, sim, em educação, saúde e transportes públicos. Mas isso não quer dizer que alcançamos a qualidade desejável nesses setores. Muito pelo contrário.

A nossa evolução significa apenas que avançamos um pouco onde antes não tínhamos quase nada e ainda temos muito a fazer nesse país em construção. Para que os governos não se esqueçam disso e se refestelem nas delícias e tentações do poder, a pressão das ruas não pode parar.

Mas, como disse antes, governantes têm medo de multidões pacíficas. Com elas não se brinca.

Contra Black Bloc é diferente. O vandalismo, que mascara suas reais intenções e atores, dá a qualquer governante o pretexto para responder com truculência, o que é péssimo.

Assim não se constrói nada, nem se resolve problema algum. Quem disfarça o desprezo à democracia atrás de uma máscara não tem o que dizer, nem nada a propor. E gosta de autoritarismo, como o passado mostrou.

Fábio Piperno (@piperno) é jornalista.

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