Medicina aloprada

Medicos protestando contra o ministro da saúde, Alexandre Padilha Daia OliverR7
Médicos protestando contra o ministro da saúde Alexandre Padilha (Daia Oliver R7)

Por Gustavo Vaz

A classe médica brasileira vêm ganhando muitos holofotes nos últimos meses, principalmente, pelas atitudes tomadas diante do Programa ‘Mais Médicos’, lançado por Dilma Rousseff. A rejeição da classe ao programa supera de longe o discurso da própria oposição, especialista em ‘cornetar’ qualquer movimento que Dilma e seus blue caps pensem em fazer. Entretanto, tamanha revolta vem causando uma péssima imagem dos médicos perante a sociedade em geral.

Nossos nobres médicos passam por uma seleção selvagem para entrar em universidades (qualquer uma de boa qualidade tem concorrências imensas, sejam públicas ou privadas), e quando entram passam seis anos se matando de estudar para na sequência enfrentar mais uns anos em residência, após tudo isto, finalmente poderão conseguir um posto de médico no mercado. Pois bem, todo esse processo parece destruir alguns neurônios desses cidadãos, além de causar uma mentalidade individualista, aborrecida, gananciosa e corporativista, tudo ao contrário do cuidado e altruísmo que a profissão médica requisita.

Para passar todas essas etapas descritas acima, o pretendente à medicina precisará ter recursos financeiros para bancar cursinho, material e mensalidade (em caso de instituições particulares). Desta maneira, a maioria dos jovens que se tornam médicos acaba vindo das classes mais abastadas do país. Ora, todas as pessoas esclarecidas desta nação conhecem o pensamento preguiçoso e elitista que as pessoas destas classes conservam. A partir daí se explicam algumas atitudes vistas nas últimas semanas, com uma dose cavalar de corporativismo, é claro.

Há um desejo geral dos médicos brasileiros de montar seu consultório particular, depender apenas dele, e que seja num centro urbano grande, de preferência. Ir para o interior, mesmo com salários nas casas das dezenas de milhar, nem pensar. Pelo sistema público, então… Pode esquecer. “Ah, mas estas cidades não têm estrutura”, dirão alguns. Concordo, a estrutura médica brasileira é deficitária e vexatória, para dizer o mínimo, e apoio completamente à luta para que haja uma melhora neste ponto. Porém, nada justifica o deserto de médicos nas cidades interioranas deste país dadas. No Paraná (estado em que vivo), por exemplo, 36 cidades não têm sequer um médico trabalhando pelo SUS.

Para tentar suprir esta falta de profissionais nos rincões do Brasil, Dilma e seu governo criaram o Programa ‘Mais Médicos’ que prevê a importação de profissionais estrangeiros, além de outros pontos como a passagem obrigatória dos estudantes pelo SUS antes da formatura (posteriormente revogado). O que se viu após a tomada destas medidas foi um show de xenofobia e até racismo. Os episódios ocorridos em Fortaleza, na última semana, são um exemplo claro desta ideologia. Há um preconceito claro contra cubanos, em especial, com a justificativa de que são profissionais inferiores e de que a medicina deles é reconhecida apenas popularmente, mas não pelas instituições do setor. Nada que justifique, mais uma vez, as vaias e ofensas gratuitas aplicadas aos estrangeiros.

Pode-se discutir a maneira como os salários serão pagos a estes cubanos? Sim, sem dúvida, afinal dar a verba para o governo de lá repassar aos profissionais é discutível. Há também o problema de possíveis deserções, que o governo brasileiro poderá ter que lidar, com a possibilidade de tomar atitudes de plena fraternidade diplomática. Mas, rechaçar uma ajuda a lugares não ocupados pela medicina é deplorável.

Além dos problemas aqui listados, pode-se questionar a classe médica por diversos outros defeitos. Falta de conhecimento no atendimento, relação fria com o paciente, qualificação questionável, padronização nos diagnósticos, erros médicos crassos… Enfim, o corporativismo é apenas um defeito na formação aparentemente falha dos profissionais da saúde do Brasil. Provavelmente, o lado humano da profissão é pouquíssimo abordado durante as graduações país afora.

Fica também a reflexão de que a sociedade paga (via impostos) para uma educação superior que forme profissionais de qualidade, dentre eles, médicos. O que se espera é que estes profissionais retribuam a população o que ela gastou, em forma de bons serviços (como citado neste texto do site Ouro de Tolo). A atitude dos médicos atuais parece mais preocupada em retribuir apenas às suas próprias contas bancárias. Enquanto isso acontecer, veremos absurdos, como hospitais de alta demanda, e que já oferecem consultas uma vez a cada morte de papa, parados por causa de uma ideologia egoísta, pra dizer o mínimo.

Quem vêm de longe para se consultar num hospital da cidade grande, num espaço conquistado há meio ano, é obrigado a voltar de mãos vazias, porque os médicos que não querem ir até a cidade destes pacientes, também querem impedir que importem gente de fora para ocupar este vazio. Nada mais simbólico.

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