Um contra todos, todos contra um

Por Gustavo Vaz

Um dos poucos conflitos armados de grande porte em território brasileiro, tanto que há muitas homenagens no estado aos “heróis” do conflito, como um obelisco no Parque do Ibirapuera, um monumento num cemitério em Campinas, além também de desfiles civis e um feriado estadual.

Na época, Getúlio Vargas estava há dois anos no poder após um golpe de estado que impediu Júlio Prestes, paulista, de ser empossado, assim encerrando a extremamente desgastada política do “café-com-leite” e a República Velha. Na política do “café-com-leite”, a presidência do país era alternada entre mineiros (produtores de leite) e paulistas (cafeeiros), nativos dos dois estados mais ricos do país, por via de eleições não muito democráticas.

Na eleição de 1930, uma chapa comandada pelo gaúcho Getúlio Vargas e pelo paraibano João Pessoa resolveu ameaçar fortemente a prática, auxiliada principalmente pela Crise de 1929, na qual a cultura cafeeira foi devastada, levando a economia do país para baixo. Some-se a isso o desgaste do então presidente Washington Luís, paulista, ao indicar como candidato um conterrâneo e não um mineiro, uma revolta armada comandada pelo Rio Grande do Sul de Vargas, e o assassinato de João Pessoa e pronto, tivemos o cenário perfeito para uma reviravolta e a derrubada da estrutura vigente. Vargas com o apoio do exército assumiu a presidência.

Claro que a oligarquia cafeeira (e quebrada) paulista não ficaria calada e em 1932 veio a resposta. Com o álibi de estar contra o fim da autonomia dos estados em suas eleições internas, o povo paulista seguiu sua elite e partiu para uma luta armada contra a nação, visando derrubar Getúlio Vargas, em seu Governo Provisório, e a criação de uma nova constituição. O conflito durou três meses com um saldo de 900 mortes oficiais (sendo que há relatos de 2200 baixas) e a rendição dos paulistas. Apesar de tudo, os paulistas se orgulham muito desse movimento e o considera um “exemplo de civismo”.

Porém, Getúlio Vargas era um sábio estadista e mostrou isso ao fim da balbúrdia (uma das inúmeras vezes que ele demonstrou essa capacidade, aliás). Após a revolta paulista, ele botou em prática uma eleição, a qual já havia agendado antes de tudo, mas com pouca visibilidade. Neste pleito, onde a democracia seria reestabilizada, Vargas foi vitorioso, Além de tudo isso, o gaúcho tomou para si as rédeas da questão constitucionalista, criando uma Assembleia que promulgaria dois anos mais tarde a Constituição de 1934, além da fundação de Justiça Eleitoral, que impediria um domínio visto na República Velha. Vargas ainda faz as pazes com os paulistas, nomeando um interventor do estado para governá-lo, ao contrário do que acontecia pré-1932 (São Paulo ganhou intervenção após a “traquinagem” de 1930). Todas jogadas típicas da “raposa velha” que era Vargas, para acalmar o ímpeto paulista e botar panos quentes em tudo.

Enquanto Vargas fazia suas táticas, São Paulo era botado num status menor pelos outros dominantes (além do RS, Minas Gerais e o Rio de Janeiro), sendo taxado de estado separatista e elitista, que só visava reconquistar o poder de forma golpista, ou seja, a Revolução seria ridicularizada e a história contada pelos vencedores, como em todas as guerras. O Rio de Janeiro foi parte chave na guerra civil, já que os paulistas desejavam dominar Resende e assim ganhar território rumo a capital do país (o Rio, na época). Porém, as forças nacionais e cariocas conseguiram minar o exército paulista ali, forçando-o a apenas se defender no Vale do Paraíba, fato que deixou São Paulo bem perto da derrota. A rendição seria assinada em Cruzeiro, cidade próxima à divisa com o Rio, a leste de Aparecida e Guaratinguetá. Os mineiros acuaram os paulistas pelo norte, e o sul desguarnecido foi uma avenida para o exército varguista e os gaúchos, predominantemente, acabarem de vez com a celeuma. A União e os estados apoiadores mostravam sua força e preparo muito maior que o dos paulistas. Os líderes do levante foram presos e exilados na sequencia.

Entretanto, de fato, o resumo da ópera é que, de maneira egoísta, São Paulo queria retomar o comando do país e recolocar sua elite no topo, reinstaurando uma política velha e defasada, nem que isso custasse o avanço da nação. Quando viram a dificuldade disso, resolveram tentar um levante separatista e ir contra o seu país. Algo como: “se eu não estou no domínio, vou tentar virar a mesa”. Vargas apenas soube reverter a situação para si, aproveitar-se das reivindicações justas, criando um trampolim para aumentar sua popularidade e começar a sedimentar seu legado de grande estadista.

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