A revolução vazia

Leonardo Dahi

Não diga!
Não diga!

E o povo foi, enfim, para as ruas. Após mais de vinte anos de passividade, o brasileiro decidiu que era hora de se levantar, agir, fazer alguma coisa. O estopim para a revolta geral da nação foi o aumento de vinte centavos no preço das passagens de ônibus em algumas capitais do país. A partir daí, vários protestos se desencadearam e o assunto virou tema das conversas de todo o Brasil.

Em primeiro lugar, é preciso frisar que, independente da legitimidade do ato, um protesto sempre é válido. Por um motivo nobre ou não, ele é um direito garantido na Constituição. Também é necessário dizer (mas não deveria ser, de tão óbvio que é) que um protesto sempre tem como objetivo, atrapalhar. Não existe protesto – pelo menos não com sucesso – que não “atrapalhe o trânsito” e reclamar disso chega a ser quase uma ironia em cidades como São Paulo, onde nunca se chega cedo em casa.

Também me soa óbvio que em um grupo enorme de jovens inflamados, com vontade de gritar e reivindicar alguma coisa, existirão alguns baderneiros que partirão para a violência, e estes não podem, sob hipótese nenhuma, descaracterizar o movimento. Por fim, é preciso demonstrar todo o repudio quanto à ação da Polícia Militar na esmagadora maioria das capitais, que, em um remake de cenas vistas nas décadas de 60 e 70, atropelou a Constituição e, quase que literalmente, alguns manifestantes. Bem como é de se repudiar a atitude de todos os governantes, de todos os partidos, que tentaram fazer cortina de fumaça no que acontecia até quando foi possível.

Faço essa introdução para demonstrar que não deve se questionar o fato de que, enfim, essa geração foi às ruas e de que isso é ótimo. Estão muito certos e tem que protestar. Mas, agora, é hora de parar um pouco e pensar: qual o real sentido destes protestos? O que eles conseguiram, ou melhor, querem conseguir? Honestamente, não conseguiram quase nada e, desse jeito, dificilmente conseguirão alguma coisa.

Fazer barulho, mostrar aos governantes que está acordado, é o básico de qualquer protesto. Se eu sair na rua batendo panelas em frente a sede da CBF, indignado porque o Ronaldinho Gaúcho não foi chamado para a Copa das Confederações, vou mostrar meu descontentamento, vou incomodar algumas pessoas, e não vou conseguir nada, porque o Felipão não irá mudar de ideia na próxima convocação só porque eu quero assim. Ou seja: essa “Revolução” que todo mundo fala nada mais é que a condição fundamental para que um protesto exista. E essa condição não é uma conquista, mas sim o início, a “pedra fundamental”.

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Foto: Divulgação

O “Movimento Passe Livre” faz algo parecido com a o exemplo dado no início do parágrafo anterior. Não precisa pensar muito para saber que, pelo menos neste milênio, nenhuma grande cidade brasileira vai dar transporte coletivo de graça para todo mundo. Talvez seja preciso queimar uns dois ou três neurônios para entender que isso é economicamente inviável (e, para isso, eu recomendo a leitura deste texto), mas isso é outra história. Fato é que esses estudantes estão lutando por algo completamente utópico, o que nem é ruim por si só. A questão é que existem reivindicações mais viáveis e que teriam mais chance de surtir efeito. E nem é preciso sair do tema passagens de ônibus para achar uma delas: seria mais interessante lutar apenas para que não houvesse o tal aumento das passagens, ou contra a máfia que controla o transporte coletivo no país.

Só que aí entram dois problemas bastante graves. O primeiro é que nossa sociedade é meio estranha. Passa a vida dizendo que o brasileiro é acomodado, que não vai para a rua exigir seus direitos e, quando fazemos isso, o cidadão reclama que eles atrapalham o trânsito “por causa de vinte centavos”, sendo que “são jovens de classe média que portam um iPhone de dois mil reais”. O segundo é que quem protesta resolve dar ouvidos a estes absurdos e começa a bradar “não é só por vinte centavos”. Aí, amigos, aí danou-se de vez. O que era utopia vira uma sala de quinta série com 70 alunos, onde todo mundo grita, ninguém entende nada e o professor finge que nada acontece, se limitando a, de vez em quando, falar “crianças, silêncio”.

Querem o Michel Temer Presidente. (Foto: Reprodução)
Querem o Michel Temer Presidente. (Foto: Reprodução)

Digamos que houvessem 100 mil pessoas na Avenida Paulista ontem. É de se imaginar que sejam pessoas das mais diversas raças e classes sociais e, consequentemente, que tenham motivos bem diferentes para mostrar seu descontentamento com o governo, seja ele de que partido for, de que esfera for. Agora você imagine que este protesto simplesmente não tenha um objetivo definido, já que a maioria destes manifestantes bem sabe que o Passe Livre é uma bobagem. Pronto. O cara que tem a mãe doente no hospital público reclama da saúde, enquanto, ao seu lado, o pai que tem filho na escola do Estado, brada por melhorias no setor. Com a camisa vermelha, um carrega a bandeira do MST, enquanto, ao seu lado, um fazendeiro protesta contra a tomada de terra por parte do movimento. É uma situação fictícia, mas perfeitamente possível.

Quanto menos os movimentos tiverem uma ideia central, mais barulho ele irá fazer, maior adesão ele ganhará, e menor chance de sucesso ele terá. Se revoltar gratuitamente contra todo o descaso dos políticos nesses vinte anos de uma vez, é legítimo. Achar que dará algum resultado, é tão utópico quanto o tal “Passe Livre”.

E sem contar que aí entra uma porrada de gente fazendo discurso de boteco. Um quer protestar contra o dinheiro gasto nos estádios da Copa no dia do jogo de abertura da Copa das Confederações, sendo que teve quase seis anos para fazer alguma coisa (se isso aí não é vontade de aparecer, sei lá o que é…). O outro começa a meter o pau na Globo, dizendo que ela é manipuladora. Tenho fé que um dia teremos algo chamado internet para as pessoas terem alguma fonte de informação além da TV. Também sonho com o dia em que o controle remoto chegará a todas as casas do Brasil. Bom, isso é outra história. Tem gente que quer, inclusive, acabar com os partidos políticos em nome da “reforma política”, algo que nem merece comentários. E sempre tem um quer tirar a Dilma da Presidência da República, enquanto o outro quer que todo mundo cante o hino nacional de costas no jogo do Brasil.

Amigo, aquilo lá é evento FIFA, campeonato de futebol. Só se justifica cantar o hino de costas em uma situação dessas se seu time estiver mal. Como o Brasil ganhou de 3 x 0 o primeiro jogo, acho que eles merecem uma moral maior. Se sair gol do México, aí sim, xinguem o Felipão, virem de costas, sei lá, façam alguma coisa. NÃO JOGA POR AMOR, JOGA POR TERROR. Bom, isso também é outra história.

Fato é que é muito legal ver o povo indo as ruas para demonstrar seu descontentamento. Mas a tão falada “Revolução”, lembra muito um elefante branco, alvo de tantas reclamações dos protestantes. É enorme, bem construída, bonita arquitetonicamente, impressiona, causa impacto. Por dentro, porém, é vazia e, assim que essa euforia acabar, ela não terá nenhuma utilidade, não deixará nenhum legado.

Querem marcar uma audiência com o Prefeito do RIO DE JANEIRO e usam o cartaz para convocar o povo a cantar o hino nacional de costas no jogo em FORTALEZA. (Foto: Facebook)
Querem marcar uma audiência com o Prefeito do RIO DE JANEIRO e usam o cartaz para convocar o povo a cantar o hino nacional de costas no jogo em FORTALEZA. (Foto: Facebook)

 

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