A história de “dois pesos, duas medidas” e um jornalismo desnorteado

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Por Gustavo Vaz

No último ano, o Brasil viveu um momento interessante. O caso Mensalão, principal escândalo da gestão petista, foi julgado pelo STF, por inúmeros dias a fio. A mídia não falava de outra coisa, canais de TV faziam cobertura ostensiva do júri. Ver as sessões do plenário do STF virou quase um reality show, as discussões entre o relator Joaquim Barbosa e o questionador Ricardo Lewandowski se tornaram notórias. E como em todo bom reality show o povo tomou alguém como herói e alguém como vilão. Barbosa saiu idolatrado, como o justiceiro da pátria, o Tiradentes do século XXI. Lewandowski era o canalha, defensor da corrupção. No fim, os pilares do Mensalão foram condenados, a população foi vingada, a corrupção que começou em 2003 acabou, existem heróis nessa pátria, tudo vai ser mais feliz. Viva o Brasil!

Bom, lamento dizer, mas a situação não é tão simples quanto se parece. Num momento semelhante ao do Julgamento do Mensalão, o Caso Cachoeira estava fervilhando. O bicheiro esnobava a Comissão de Ética do Congresso, num escândalo que envolvia diversos políticos tucanos e democratas e, que talvez, seja maior do que o Mensalão. A mídia deu pouca cobertura ao caso, mais recente, do que ao julgamento de um caso ocorrido lá em 2005. É claro que tal fato dá uma imensa corda para os defensores do PT caírem em cima da imprensa. O que é bem justificável, dada a postura de veículos como a Veja de tentar mostrar que só existe corrupção do lado petista.

Independente de sua postura política, caro leitor, você deve saber uma coisa: os veículos de imprensa têm uma linha editorial e uma postura diante do cenário político nacional. Isso não é exclusividade do Brasil. Acompanhe a mídia americana em época de eleições e você verá apoios escancarados a candidatos (uns chegam a estampar que um é melhor opção que o outro). O problema é que não há uma noção de cobertura aqui no Brasil, e aí a bandalheira grassa. Some-se a isso o fato do PT estar no governo e, por isso, ser o centro das atenções, e chegamos à situação de ter que buscar, em meios alternativos, informações mais confiáveis sobre as “pataquadas” da oposição. Com isso, cria-se um senso comum de que o Mensalão é o maior escândalo da história do país, que no governo FHC não havia nada disto e blá, blá, blá…

Talvez isso choque muitos, mas na Era FHC aconteceram diversos escândalos de corrupção e falta de ética. Tivemos o caso da Sudam, os Vampiros da Saúde, os Anões do Orçamento, o do Banco Marka, o da venda do Banestado (que detonou o banco do estado do Paraná, causando inúmeras demissões, e um imenso prejuízo financeiro ao governo seguinte e aos desempregados) e, a Privataria Tucana, trazida a notoriedade pelo livro do jornalista Amaury Ribeiro Junior. E mais, vários gráficos e levantamentos colocam estes escândalos como mais danosos aos cofres públicos do que o Mensalão.

Enquanto toda a parte principal da mídia urrava pela justiça no Mensalão, a Privataria Tucana era esquecida. Pouquíssima gente pedia investigações. O Caso Cachoeira foi coberto, mas depois de um tempo, esquecido. Marconi Perillo, governador de Goiás, é tão envolvido em corrupção quanto Sarney e Calheiros e isso é pouco divulgado. A Carta Capital recentemente botou na sua capa uma reportagem sobre os podres assustadores de Perillo. Ficou só nisso. A Veja diz que o faxineiro do chefe da equipe das camareiras das viagens de Dilma recebeu dinheiro indevido e já é caso de pedir o impeachment da presidenta (sim, presidenta é aceito, para quem não conhece a língua portuguesa tão bem assim).

É essa discrepância que tem de ser notada pelos leitores, ouvintes e telespectadores e revista pelo jornalismo brasileiro. Como já dito, todos os veículos têm suas ideologias, mas há uma confusão entre ter um ideal e encobrir crimes por aqui. A questão não está em defender um lado e achincalhar o outro. Todos os partidos têm corruptos em suas legendas, e esse mal deve ser combatido independente de ideal. Uma coisa é defender sua ideia de política (e para isso existem editoriais, artigos, colunas, crônicas nos jornais, revistas, no rádio e na TV), outra é defender que se passe em cima da Constituição porque gente do seu partido predileto se envolveu em algum lamaçal. Claro que para haver uma prática nesse nível, os partidos, que por meio de seus governos, acabam apoiando veículos, deveriam combater a corrupção nas suas legendas, mas esse já é outro papo. Assim, talvez, seja dado mais um passo para maturar a imprensa e permitir que, um dia, as posições políticas sejam tratadas mais sensatamente, tanto pela imprensa, quanto pela população.

Até lá, o melhor a se fazer é ler todo o tipo de veículo para se ter um ponto de “meio termo”, pois se a Veja é um panfleto escrachado e a Globo alivia para a oposição, a frente “esquerdista” da Record não fica muito atrás, ao passar a imagem de bastião da ética, que comemora demissões em massa (um ideal conservador, aliás) de veículos contrários. Além, é claro, da imagem de “imprensa golpista” que é criada. Talvez, os empresários da mídia queiram mesmo praticar atitudes não-democratas, num pensamento pessoal, mas o comportamento que coloca o PT como “os irmãos Metralha do Brasil” é muito mais jornalismo pessimamente feito, do que, propriamente, uma união de veículos a fim de derrubar o governo, aproveitando-se de serem o “Quarto Poder”.

P.S: Apesar de todos os escândalos citados neste texto, prefiro concordar com Romário, quando ele diz que a preparação para a Copa será o maior escândalo de corrupção da história do país.

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