Deu no New York Times

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Por Aloisio Villar

E o Lula parou no New York Times!! Convidado, escreverá uma coluna mensal para o mais famoso jornal do mundo. Assim que vi a notícia, lembrei logo da música de Jorge Benjor, “W/ Brasil”, que citava o jornal.

Sem entrar no âmbito dele ser um grande e honesto líder ou o maior de nossos corruptos, Lula é um cara que desperta paixões e ódio não deixando ninguém sem ter opinião. O nosso ex-presidente é um cara que pode sim ter uma coluna no New York Times, transformou-se em uma das figuras mais conhecidas do planeta.

Quem me conhece um pouco sabe que gosto do Lula e acho que foi um bom presidente, mas reconheço uma dose de razão naqueles que lhe contestam e citam os vários escândalos de seu governo para lhe atacar. Principalmente o fato dele “saber de nada” no escândalo do Mensalão.

Sou eleitor de Lula antes mesmo de poder votar. Com treze anos vivíamos ainda resquícios da ditadura militar, teríamos pela primeira vez uma eleição direta para presidente em quase trinta anos e o tempo do regime ditatorial ainda estava muito vivo em todos.

E, em 1989, ainda vivíamos como nos anos sessenta e setenta. Política pulsava. Músicas com esse teor eram feitas como alguns dos grandes sucessos do rock nacional. Novelas como “Vale Tudo”, filmes como “Pra Frente Brasil”, campanha de “Diretas Já”, apoio ao Plano Cruzado com muita gente saindo com adesivos em camisas escritos “Sou  fiscal do Sarney”, Constituição sendo feita.

O Brasil era muito mais político que hoje. As pessoas debatiam mais o assunto, se interessavam mais. Tenho certeza que movidas a sensação de liberdade, respirar democracia e a esperança de um país novo representado pelas eleições diretas.

Como eu disse ainda tínhamos resquícios da ditadura e esse resquício estava marcado na situação que todo mundo tinha que ter opinião e, principalmente, se posicionar. No regime militar, intelectuais, jornalistas, políticos, membros de esquerda forçavam essa situação que ainda ocorria nos anos 80. Você era direita ou esquerda, conservador ou liberal. O maniqueísmo de dividir entre vilões e mocinhos apenas pela forma de pensar.  

E ocorreu essa divisão em 89. Quem apoiava Lula era o lado do bem e Collor o do mal. Comprei essa idéia e três anos antes de poder votar fiz campanha para Lula. O “mal” venceu jogando sujo. Collor colocou na tv uma ex-namorada do petista dizendo que ele queria que ela abortasse e dessa forma venceu as eleições.

Com o tempo descobri que bem e mal não existe em política e sim senso de oportunidade. Lula e Collor me ensinaram isso quando, anos depois, se tornaram aliados mesmo com tudo o que ocorreu. Lula me mostrou de novo ano passado, recebendo apoio de Paulo Maluf. O mesmo Maluf que era governador de São Paulo quando foi preso.

Mas não foi o ex-presidente que inventou isso. Só lembrar que Prestes apoiou Getúlio na eleição presidencial de 1950, apenas alguns anos depois que Getúlio mandou a esposa judia do líder comunista para a Alemanha nazista.

Digo isso tudo pra mostrar que até posso concordar com contestações a sua trajetória política dos últimos anos, alguns de seus atos. Mas acho babaca, ordinário, preconceituoso debochar dele receber esse convite alegando que mal sabe escrever.

Mesmos ataques elitistas usados desde que ele surgiu no fim dos anos setenta. Debocham do pouco estudo de Lula como se fossemos um país de alfabetizados com muitas escolas, respeito ao dever cívico e à cidadania.

Como se não fossemos um país de miseráveis, de gente que morre de fome, de gente que com sete, oito anos de idade tem que largar os estudos e pegar em enxadas pra trabalhar ou vender balas em ônibus, engraxar sapatos, se prostituir pra ter o que comer.

Esses imbecis estudados vivem tanto no mundo alienado deles que não percebem que a maioria da população é como Lula e se identifica com ele. Não percebem que cada vez que lhe ataca no pouco estudo eles se sentem atacados e lhe apoiam. Não entendem que Lula tem vários telhados de vidro pra ser atacado e atacam justo seu lado mais forte, seu campo minado pronto pra explodir quem pisa nele.

E dessa forma o PT vai se perpetuando no poder.

Escrever é muito fácil. Os malucos daqui mesmo cometem a insanidade de me deixar escrever nesse espaço todas as semanas. Mas muito mais importante que saber escrever é ter o que escrever. Lula é um cara de pouco estudo assim como Cartola que foi porteiro de prédio, flanelinha de carros, resgatado da miséria, velho teve que pedir abrigo ao pai por não ter onde morar e foi um dos maiores compositores e conhecedor da alma da língua portuguesa que já existiu.

Cartola não precisava ter uma caligrafia perfeita nem escrever sem erros de português para fazer grandes letras, não precisava conhecer partitura musical pra fazer as mais belas melodias. Quantas pessoas estudadas vocês conhecem que já escreveram coisas do tipo “Queixo-me às rosas/ Mas que bobagem/ As rosas não falam/ Simplesmente as rosas exalam/ O perfume que roubam de ti”.

Quantas pessoas vocês conhecem que saiu dos grotões do interior do Nordeste para viver em São Paulo, venceu a miséria, perdas pessoais e se tornou presidente da República com 90% de aprovação, conhecido por todo o planeta e respeitado pelos líderes mundiais?

Falem o que quiserem de Lula, podem pedir a vontade investigação sobre ele e cadeia. Mas apagar essa trajetória, não reconhecer que ele é um vencedor na vida é idiotice e o NYT nada mais fez do que ser inteligente e convidar alguém com história para contar essas histórias.

Repito: não adianta saber escrever se você não tem o que escrever e, além do mais, todo jornal tem um editor para corrigir os erros.

Em vez de exalar chorume era melhor ler o que ele tem a dizer e pegar o que tem de útil pra construção desse país.

E, se não gosta dele, mais um motivo pra ler. Primeiro passo pra ser derrotado por um inimigo é não conhecê-lo.

Luiz Inácio falou.. Luiz Inácio avisou..

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