JINGLE POLÍTICO: da marchinha de carnaval à linha de produção

Uma grande feira. Nela, um punhado de gente tenta chamar a atenção da multidão que passa. Quem cantar a música mais grudenta, aquela que não sai da cabeça, vende seu peixe. Assim os jingles políticos tentam grudar o candidato na cabeça do eleitor.

Antes de se tornar um produto de publicidade eleitoral e fazer jus à alcunha made in USA jingle (termo para “canção publicitária”), a música política no Brasil tocava na mesma vitrola da música popular. Entre os sucessos do carnaval de 1917, estava tanto à convocação apolítica para “deixar a mágoa pra trás” e sambar (“Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida) quanto o protesto contra os desmandos do presidente Venceslau Brás: “Meu milagroso São Brás/Não aperte tanto o nó/Pense o mal que nos faz/Do Zé Povo tenha dó” (Desabafo Carnavalesco, de Freire Júnior). Se música era crônica cotidiana, nada mais natural que cantar a política também.

E os próprios políticos, que nunca foram bobos, não ficariam de fora. Em meados da década de 20, com a propagação do rádio e com o fim de uma época em que os coronéis “decidiam” o voto, o uso político de canções tornou-se moeda importante numa eleição. O candidato contratava um compositor, a canção era gravada e o disco, entregue às rádios – dependia delas executá-las ou não. “Era o período do áureo das canções políticas. Numa população de analfabetos, o rádio tinha um imenso apelo”, explica Ivan Santo Barbosa, coordenador do curso de marketing político da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

“Ao contrário de promover políticos, como acontece hoje, o objetivo da maioria dos jingles nessa época era destruir reputações”, explica o escritor e jornalista Fernando Morais. Assim, o rádio deu o tom para as campanhas eleitorais até o golpe de 1964. Antes, na disputada eleição de 1960, nasceu um dos jingles mais populares do país: “Varre, Varre, Vassourinha”, que carregou o caricato Jânio Quadros à presidência. Em razão da ditadura militar, a mudança que a popularização da TV nos anos 60 prometia para as campanhas políticas teve que ser adiada por 21 anos.

No fim da década de 80, com a redemocratização e o horário eleitoral político no rádio e na TV, os jingles ganham a melhor acepção à palavra. “Nas eleições de 1989, surge o marketing político. Cada vez mais o candidato é ‘vendido’ como um produto”, resume Barbosa. Hoje, o autor do jingle para um candidato à presidência é o mesmo do tema para uma companhia aérea. O mercado ganha contornos de linha de produção. “Na reeleição do Fernando Henrique Cardoso, em 1998, foram 49 canções – quase uma por dia. Teve jingle que só foi ao ar na TV um dia”, lembra PC Bernardes, autor da canção “FHC reeleição”, cantada por Dominguinhos.

Com a entrada da TV nas campanhas, no entanto, o jingle perdeu um pouco de força. “Ele não ganha mais uma eleição. É mais uma peça numa engrenagem maior, mas é fundamental para dar emoção a campanha”, diz o marqueteiro Chico Santa Rita. Exemplo perfeito é a canção “Lula Lá”, da campanha petista de 1989. Lula só chegou lá em 2002, mas a música marcou para sempre o ex-presidente. Por sinal, “Lula Lá” segue a forma básica para o sucesso de uma canção política: “Jingle bom é aquele que uma criança lembra e sai cantarolando”, define Katia Saisi, professora de marketing político da USP.

Tudo bem, o jingle pode ser mais um item em meio a santinho, internet, adesivo, outdoor, bandeira, rádio, televisão, camiseta, botom, debate, pesquisa e comício. Mas não tenha dúvida: é do jingle que você vai se lembrar.

Texto retirado da matéria “Os 20 maiores jingles políticos de todos os tempos” da Revista Super Interessante.

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5 comentários sobre “JINGLE POLÍTICO: da marchinha de carnaval à linha de produção

  1. Olá, primeiramente, parabéns pela iniciativa do blog.
    Então, estou escrevendo minha monografia sobre os jingles políticos e gostaria de saber mais sobre as informações desse post. Preciso de artigos com esse conteúdo que é essencial para complementar a história da política nos meios de comunicação e para a publicidade. Teria como me ajudarem com as fontes e artigos a respeito do conteúdo do post?
    Obrigada.

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