Os gafanhotos da bola

Independence Day

Por Gustavo Vaz

Área 51, o presidente dos EUA, refugiado no lendário centro de estudos alienígenas em meio a uma invasão, tenta fazer contato com um ET capturado por um soldado numa fracassada ofensiva contra as naves, estacionadas nas mais diversas cidades do planeta. Na conversa meio telepática, o presidente pergunta se há um modo de chegar a um acordo de paz e recebe uma negativa do alienígena, que mostra a prática de seu povo nas invasões de planetas universo afora. Após esse “diálogo”, o presidente americano relata que o povo extraterrestre “invade os planetas, como se fossem gafanhotos e depois que usam todos os recursos, movem com todo seu povo a outro, para repetir o mesmo processo”.

Nesse momento, o leitor deve estar perguntando o que a história acima tem a ver com o título, se eu estou em uma “viagem maionésica”, ou se eu enlouqueci. Calma, não irei fazer uma crítica do filme (meia boca, mas aceitável para se passar o tempo) Independence Day, de onde a cena citada foi retirada.

Ano que vem acontecerá a Copa do Mundo em nosso país, teremos estádios modernos construídos pela iniciativa privada, em conjunto aos clubes (quando possível), os equipamentos não se transformarão em elefantes brancos, serão acessíveis a todos os cidadãos, resultando numa festa essencialmente brasileira que deixará um legado esportivo imenso ao país do futebol… Não. Na verdade, não teremos nada disso que foi escrito quando a Copa terminar, e os mais diversos cartolas da FIFA (que têm passagem livre pelo país, desde a escolha do Brasil como sede da próxima Copa, lá em 2007) zarparem do Brasil, rumo à próxima sede da maior e mais rentável competição do esporte mundial.

O que nós vimos nos últimos anos foi uma série de desmandos da FIFA (e de aceitações quase sem resistência dos governantes, presidentes de federações e clubes) de como os estádios da Copa deveriam ser construídos ou reformados. Nada de simplicidade, tudo tem que ser suntuoso, a grama tem que ser de tal tipo, as cadeiras de outro. Ninguém poderá ficar em pé, xingar jogadores/técnicos, agitar bandeiras e levar faixas nos jogos da Copa. Ou seja, tudo tem que parecer bonitinho, higienizado, como se fosse uma ópera no Teatro Scala de Milão e não um esporte que provoca no ser humano, emoções, alegrias, tristezas, e uma catarse coletiva, com peculiaridades fantásticas no Brasil.

É claro que não é do interesse dos políticos e organizadores, barrar os desmandos da FIFA, afinal, é mais importante fazer construtoras e empreiteiras lucrarem com qualquer detalhe das novas arenas erguidas Brasil afora. Aliás, uma associação entre o nome “arena”, o gigantismo dos estádios da Copa, e o Milagre Econômico dos anos 1970, não é mera coincidência, basta observar o passado político do presidente do Comitê Local, José Maria Marin.

Ao invés de adequações pontuais que eram necessárias em alguns estádios da Copa, vimos reformas gigantescas, mudando o antigo layout dessas instalações, que significavam tanto para os torcedores que as frequentavam. Ou você, caro leitor, acha que as revoluções feitas no Mineirão, Maracanã, Beira-Rio e Arena da Baixada eram essenciais para o bom andamento da Copa? Era claro que estes estádios com adequações bem menores estariam aptos a receber jogos da competição. Porém, o que é mais nítido ainda é que o grande filão da Copa (e das Olímpiadas) são as grandes construções de estádios, o aumento da especulação imobiliária e valorização extrema de imóveis próximos.

Foram nessas condições que a FIFA/COL mudaram rapidamente a sede da Copa em São Paulo, do Morumbi para o novo Itaquerão. Com a recusa do São Paulo de obedecer todas as exigências da FIFA e o projeto do Corinthians de erguer um estádio pronto, só foi preciso unir o útil ao agradável. Mais uma obra maior do que deveria ser (visto que o projeto original do Itaquerão era bem mais modesto e o Morumbi é um estádio que necessitava, também, de adaptações, apenas). É claro que vários estádios precisavam ser urgentemente modernizados, e nesse lado, a Copa veio bem a calhar, mas não precisava o exagero nos retoques.

A cereja do bolo está no fato de que dinheiro público está sendo usado para pagar a construção/reforma dos estádios, ao contrário do que foi prometido em 2007, tanto por Lula, quanto por Ricardo Teixeira, então presidente da CBF. Não falo da isenção de impostos dada ao Corinthians, ou os empréstimos do BNDES destinados ao Atlético/PR e ao Internacional, porque nesses casos ainda há salvação (o Luís Butti escreveu sobre isto aqui no Brasil Decide), mas sim, dos inúmeros estádios públicos, nos quais não houve nenhuma preocupação em se fazer uma parceria com empresas privadas e onde se gastam rios de dinheiro público diretamente.

Ainda por cima, muitas obras tiveram seus orçamentos multiplicados e deverão render em descobertas de superfaturamento no pós-Copa e, talvez, possam ter o mesmo destino do Engenhão. Pra completar, o orçamento destinado às obras de mobilidade pública não será nem um pouco bem utilizado, visto que muitas das obras previstas nem sairão do papel, ou serão realizadas “nas coxas”.

Enquanto isso, os manda-chuvas da FIFA assistirão tranquilamente o aumento exponencial do patrimônio financeiro da entidade, nem que isso custe rios de dinheiro público e a destruição de uma cultura brasileira, que é o modo de ver um jogo de futebol, sem preocupação alguma com a esterilização que haverá, afinal nem homenagear um dos maiores nomes do jogo em um estádio é permitido.

No fim, a FIFA será idêntica aos alienígenas invasores de Independence Day, usará os recursos do país e quando eles se esgotarem, irão embora rumo à próxima sede (Rússia, 2018), deixando uma “terra arrasada”. Ao contrário do filme, já não há mais tempo para evitar a desgraça. Sinto informá-los, mas a oitava praga do Egito está entre nós, em forma de cartolas da FIFA e políticos “bananas”.

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