Nem direita, nem esquerda. Estamos à frente

Suplicy assinou a ficha de apoio para a criação da Rede Sustentabilidade de Marina Silva e Heloísa Helena, mas não vai desembarcar no partido.

 

Pedro Spiacci

Vim manifestar a minha insatisfação com a história da criação de mais um partido no Brasil – já somamos 30 legendas registras no Tribunal Superior Eleitoral. Desde setembro de 2011, três novas siglas foram fundadas no Brasil: PSD, PPL e PEN. O destaque é o partido criado por Kassab, que já está entre os maiores do país e tem parlamentares em várias regiões do Brasil. Além disso, há especulação de que na próxima reforma ministerial de Dilma, o PSD irá receber um Ministério.

Mas a personagem central desta crítica é Marina Silva. Depois de ser terceira colocada na disputa presidencial em 2010, a ex-ministra do governo Lula não demorou para abandonar o PV, que pareceu não mostrar força para manter uma candidata “deste porte”. Além disso, não é raro ler análises sobre o que virou a sigla nos últimos tempos: um partido sem posição e, normalmente, próximo aos governos em todas as esferas.

Depois de sair do PV, Marina Silva ficou à deriva, com um potencial político grande junto com ela. Na eleição de 2012, mesmo sem estar filiada à nenhuma sigla colaborou. No Paraná por exemplo,  a ex-ministra participou das disputas em Londrina e Curitiba. No norte do estado, apoiou o ambientalista e médico Luiz Eduardo Cheida (PMDB) e, na capital, esteve ao lado do ex-deputado federal tucano Gustavo Fruet (PDT). Essas movimentações e outras pelo Brasil deixaram clara a posição de independência da ex-senadora.

Durante as eleições de 2012 começava a ficar mais claro o interesse de Marina Silva em voltar a disputar o Palácio do Planalto em 2014. Para isso, se desenhava a criação de um novo partido. Ex-senadora não confirmava, mas também não negava este interesse. Neste início de 2013, a ideia se confirmou e teve como uma das grandes entusiastas, a também ex-senadora e ex-petista, Heloísa Helena, que hoje é vereadora em Maceió-AL.

A Alagoana de Pão de Açúcar era figura de destaque do PT, de onde foi expulsa em 2003; participou em 2006 da fundação do PSOL, onde nos últimos anos, insatisfeita com os rumos da sigla resolveu deixar o partido e, agora, faz parte da embrionária legenda de Marina Silva. Ou seja, em 23 anos de vida pública, três “casas” diferentes.

É neste ponto que, de fato, quero tocar. O Brasil conta com 30 partidos registrados no TSE, então, porque criar mais uma sigla? Como dito no programa “Roda Viva” nesta segunda-feira, onde Marina Silva foi a entrevistada, as legendas têm vários perfis: esquerda, direita, centro, conservadoras, progressistas e tantos outros estilos de fazer política. Por isso, a ex-ministra foi questionada no programa da TV Cultura se não poderia ter entrando em qualquer uma delas. A resposta foi pretensiosa e seguiu a linha de querer mudar a política, lançando um novo instrumento que “não tem como principal finalidade as eleições presidenciais de 2014”.

Esta afirmação da ex-senadora é das coisas que mais contesto na política de hoje, os discursos não eleitorais e apolíticos. Ora, está criando um partido e não tem objetivo de disputar eleição? É filiado à partido político e não é “político”? Este discurso vai muito de encontro ao que pensa a maior parte da sociedade brasileira, pois, no país, a ideia de que “todos os políticos não prestam” é bastante difundida e bem aceita. Ou seja, a Rede Sustentabilidade tem uma vertente interessante para explorar. Ainda há a dificuldade do recolhimento de 500 mil assinaturas (em nove estados do país), que têm que ser registradas até início de outubro de 2013, para que ele tenha viabilidade eleitoral já em 2014, como os entusiastas da Rede Sustentabilidade querem.

Portanto, o projeto tem grandes chances de vingar e Marina deverá ter um partido do jeito que sonhou para disputar a eleição presidencial do próximo – mesmo que este não seja o objetivo da Rede. O grande desafio será a atração de parlamentares. Entre nomes confirmados estão o da vereadora de Maceió Heloísa Helena (PSOL-AL); o do deputado federal Walter Feldman (PSDB-SP), o do também deputado federal e fundador do PT, Domingos Dutra (PT-MA) e o da deputada estadual Aspásia Camargo (PV-RJ). Outros nomes que eram esperados pela cúpula do partido já anunciaram que não vão deixar as suas atuais siglas, algo que merece elogios.

Dentro disso, temos o exemplo do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) que esteve presente no evento que deu o pontapé inicial da Rede Sustentabilidade. Durante o encontro em Brasília um dos fundadores do PT deixou claro que não vai deixar a sigla que ajudou a fundar, “Tenho razões para lhes dizer: eu sou do PT, fico honrado e tentado a cair na rede, mas eu tenho compromisso sim enquanto o PT estiver de portas abertas a essas proposições (a renda mínima é uma delas)”. Mas na entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, Marina Silva já deixou claro que ouviu Suplicy e acolheu uma ideia do senador para a Rede Sustentabilidade que deverá adotar o acompanhamento online e em tempo real de todas as doações para as candidaturas.

Mas o que questiono é a facilidade com que Marina trocou o partido pelo qual dedicou uma vida (participou como figura periférica da fundação do PT) para ingressar no PV. À época, a legenda verde era a que melhor atendia as suas ideias, as principais delas: a proteção do meio ambiente e a economia sustentável. Porém, o que surpreendeu ainda mais foi a saída dela do PV em 2011, pouco tempo depois de ter entrado na sigla, por ela ter conceitos que julgava interessante. Questionada sobre isso, Marina Silva disse que, no período em que esteve no partido, avanços foram realizados, mas algumas coisas não mudaram, como a questão de diretórios provisórios, que, segundo ela, são nomeados de acordo com o interesse do presidente do PV.

A minha grande inquietação é sobre a opção pela saída do partido para criar outro ao invés de brigar dentro dele para que haja este tipo de melhora. E convenhamos, Marina Silva em 2010 era a maior liderança do PV e ainda tinha a força do “Marinismo”, movimento que recebeu quase 20 milhões de votos para a presidência naquele ano. Portanto, a ex-ministra teria tudo para liderar um movimento para fazer com que a legenda alcançasse um patamar desejado por ela. Brigar pelo o que é direito ocorre em cada um dos partidos. Existem personagens contrários a colegas de sigla por todo o Brasil. Marina, como grande liderança que é, seria a pessoa ideal para resolver aquilo que ela considerou problema dentro do PV e trazer o partido para o caminho que julga ser o certo.

“Mensalão” e duas atitudes bem diferentes

Cito um exemplo clássico: o comportamento de Tarso Genro (PT) durante a crise do “Mensalão”. O Ministro da Educação é membro da corrente petista “Mensagem ao partido”, que faz um contraponto ao setor majoritário, “Construindo um Novo Brasil”, que tem entre os membros o ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente Lula e o atual presidente petista Rui Falcão. À época, atendendo um pedido direto do chefe do executivo nacional, Tarso Genro assumiu a presidência do PT, mesmo fazendo parte do “outro lado” da legenda. O atual governador do Rio Grande do Sul teve a sua proposta de refundação do partido derrotada entre os petistas, mas, mesmo assim, após a crise do “Mensalão” seguiu lutando pela melhoria da sigla. Além disso, o gaúcho comandou outros dois ministérios depois deste período. Até hoje, Tarso Genro é ativo na luta INTERNA no PT, mas é respeitado na legenda, mesmo, muitas vezes sendo contra o que a maioria prega.

Mais uma história (prometo, é a última) do quanto é cômodo trocar de partido quando há um problema é a de Flávio Arns. No mesmo contexto de Tarso Genro, o ex-senador petista pelo Paraná não teve dúvidas e abandonou o partido. Ele foi duro em pronunciamento no Conselho de Ética do Senado Federal: “Eu tenho que me envergonhar daquilo que o meu partido fez, o Partido dos Trabalhadores hoje rasgou a página fundamental da sua constituição, que é a ética” e ainda completou, “Eu me envergonho de estar hoje no Partido dos Trabalhadores”.

Logo depois, ele abandonou o PT e desembarcou no PSDB, partido pelo o qual foi eleito para ser vice-governador. Hoje, Flávio Arns também comanda a Secretaria Estadual de Educação (SEED) onde, no final do ano passado, encaminhou mudanças na carga horária de algumas disciplinas sem que os professores do estado fossem consultados. Após clamor popular a medida foi derrubada. Flávio Arns, que, em algum dia, teve bastante ligação com as bases da sociedade e muito apoio popular (muito pelo trabalho da pastoral da criança de sua tia Zilda Arns), hoje, já não conta com a simpatia dos professores. O vice-governador do Paraná foi mais um a optar pela saída de um partido, ao invés de brigar dentro da sigla a qual pertencia para que àquela legenda pudesse melhorar.

Pedro Spiacci é jornalista formado pela Faculdade Pitágoras de Londrina/PR. Gosta de futebol, NBA, carnaval, política e BBB. @pedrospiacci

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